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Verdade: Garrincha é descendente de índios, mas nunca morou em aldeia ou foi a rituais

Garrinha garantiu Copa ao Brasil em 1962, no Chile, após contusão de Pelé

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Arquivo do Estado

Um tuíte viral chamou a atenção dos usuários da internet ao dizer que o bicampeão mundial com a seleção brasileira, Mané Garrincha, teria origem indígena. A afirmação é verdadeira.

Apesar de nunca ter chegado a morar numa tribo, o craque é descendente direto de uma comunidade do agreste pernambucano e alagoano.

O pai do jogador, Amaro Francisco dos Santos, pertencia à tribo Fulni-ô, na cidade de Quebrangulo-AL.

Aos 26 anos, Amaro foi para o Rio de Janeiro em um intenso fluxo migratório da região para o Sudeste do Brasil. De lá, mudou-se com a familia para Pau Grande (RJ), onde conseguiu emprego em uma fábrica de tecidos. Foi lá que nasceu o craque das pernas tortas. 

Atualmente, a tribo existe apenas em Pernambuco, próxima à cidade de Águas Belas, em uma reserva da Funai (Fundação Nacional do Índio). A aldeia enfrenta dificuldades, pois a caça, pesca e roça são insuficientes para o sustento, fazendo com que muitos aldeões tenham que trabalhar na cidade.

Apesar das adversidades, a comunidade ainda mantém vivo o idioma nativo, o yaathe, ou ia-tê. Além de ensinarem a cultura e etnia dos fulni-ô, os índios também falam português.

De acordo com o site Povos Indígenas no Brasil, coordenada pelo ISA (Instituto Socioambiental), Mané Garrincha não poderia ser considerado um representante da etnia.

Isso porque, pelas regras rígidas dos fulni-ô, só podem ser considerados integrantes do grupo pessoas que acompanham o ritual sagrado Ouricuri, falam ia-tê e vivem na aldeia (leia mais abaixo).

 

 

Liberdade e álcool: as raízes indígenas de Garrincha

 

 

A ascendência de Garrincha foi revelada na biografia do jogador, Estrela Solitária, escrita por Ruy Castro. Na obra, lançada em 1995, o autor fala sobre a relação do craque com a ancestralidade indígena.

“Em sua infância, Garrincha viveu em ‘selvagem liberdade’. Descalço, andava pela matas de Pau Grande sem que ninguém notasse em casa sua ausência. Cavalgava ’em pelo’ no cavalo que pertencia ao pai. Adorava caçar pássaros, jogar bola e nadar no rio. Garrincha, já a esta época, era ‘ingovernável’ como um índio.”

Ruy Castro menciona na obra que as raízes indígenas de Garrincha podem ajudar a explicar o alcoolismo de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos.

“O cachimbo era uma mistura de cachaça com mel de abelhas e canela em pau, posta para curtir numa garrafa envolta em cortiça e pendurada numa viga de teto. O cachimbo não era usado para fins recreativos ou embriagantes – pelo menos, não de propósito -, mas, medicinais”, conta o escritor.

“As mulheres o tomavam durante a gravidez. Depois do parto, continuavam tomando-o enquanto durasse o resguardo. Adultos e crianças tomavam como purgante, xarope, fortificante e para combater gripes, lombrigas, coqueluche, asma e dor de dentes. Aos bebês era dado até como tranqüilizante: uma ou duas colheres antes de dormir, para não ter sonhos agitados.”

“Nas Alagoas, Amaro e seus irmãos tinham sido criados a cachimbo. Em Pau Grande, os filhos de Amaro, inclusive Garrincha, seriam criados do mesmo jeito”, conclui Ruy Castro.

O eterno camisa 7 do Botafogo e da seleção brasileira morreu com 49 anos, em 20 de janeiro de 1983, vítima de cirrose hepática, doença desenvolvida pelo alcoolismo.

 

 

O Ouricuri e as regras do povo fulni-ô

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Segundo a página Povos Indígenas no Brasil, os fulni-ô são o “único grupo do Nordeste brasileiro que conseguiu manter viva e ativa sua própria língua (o ia-tê), assim como um ritual a que chamam Ouricuri”, que realizam com o maior sigilo possível.

“Os preparativos para a mudança para a aldeia do Ouricuri se iniciam nas últimas semanas do mês de agosto. Todos os fulni-ô que trabalham fora de Águas Belas, como funcionários, professores, policiais, durante a primeira semana do ritual pedem licença para se ausentarem do trabalho e se concentrarem na aldeia do Ouricuri; os que podem aí permanecem sem sair durante todo o ritual”, diz o site.

“Todos os fulni-ô têm como norma a proibição de falar do ritual. Os anciãos asseguram que aqueles que infringiram esta norma tiveram morte estranha. (…) No ritual do Ouricuri, o Ia-tê desempenha um papel fundamental, já que é a língua preferencialmente falada durante as suas quatorze semanas de duração. É aí que se socializam os membros mais jovens pelo ensino de um código simbólico diferente daquele utilizado pela sociedade envolvente.”

O texto sobre os fulni-ô mostra também que o povo tem critérios bem rígidos para aceitar que alguém se idenfique como integrante do grupo indígena. Mesmo os moradores da reserva da Funai não são reconhecidos.

“Os fulni-ô justificam a exclusão dos remanescentes de seu grupo, argumentando que não são índios, pois não assistem ao ritual do Ouricuri, não falam Ia-tê e vivem fora da aldeia. A maioria destes remanescentes tampouco se identifica como índios, embora reconheça que descende de pais indígenas”, justifica o ISA.

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* Estagiário do R7, com edição de texto de Marcos Rogério Lopes

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